«Eu pensava que um clube de leitura era para senhoras aposentadas com chapéu de inverno», disse-me Carlos, 63, divorciado, engenheiro reformado. «Fui lá por engano, na verdade. Queria devolver um livro.» É assim que começa esta história.
Antes
Carlos viveu 34 anos casado com a Manuela, também de Coimbra. Tiveram dois filhos, hoje adultos, um em Aveiro e outro na Alemanha. O divórcio aconteceu há quatro anos, por razões que ele resume assim: «Fomos ficando afastados, sem zanga. Um dia percebemos que jantávamos em silêncio há seis meses e que nenhum dos dois se dava ao trabalho de pôr música.»
A separação foi civilizada. A casa ficou para ela. Ele alugou um T2 na Alta de Coimbra, perto da universidade onde dera aulas. Os primeiros dois anos foram de uma tristeza discreta, não dramática. Levantava-se às sete, fazia café, lia o jornal, ia à cooperativa para aulas pontuais, voltava a casa, jantava uma sopa, via televisão, deitava-se cedo.
«As tardes de sábado eram o inferno», contou-me. «Segunda a sexta passavam depressa. Domingo ia ver o neto. Mas sábado à tarde, sozinho, entre as três e as oito, era um buraco. Já tinha feito a limpeza, já tinha ido ao café, já tinha caminhado. Faltavam cinco horas de uma solidão muito específica.»
A biblioteca
Num sábado de outubro, três anos depois do divórcio, Carlos foi devolver um livro à Biblioteca Municipal de Coimbra. Um romance do Lobo Antunes que nunca tinha acabado. Na entrada, um cartaz em papel branco: «Clube de Leitura, sábados 16h. Este mês: ‘Equador' de Miguel Sousa Tavares.»
Era 15h45. Ele entrou «só para ver», e ficou. Éramos onze pessoas, a maioria mulheres, mas três homens, todos acima dos 55. O «Equador» era um livro que ele tinha lido há anos. Conseguiu participar, timidamente. No fim, a bibliotecária chamada Graça disse-lhe: «Volte no próximo sábado. Vamos falar de Saramago.»
Ele voltou. Depois voltou outra vez.
Os primeiros seis meses
«Durante seis meses, não pensei em ninguém como possibilidade romântica», contou. «Pensei nos livros. Redescobri o Saramago. Reli o Namora. Li a Dulce Maria Cardoso. Fui buscar coisas à estante de casa. Percebi que eu, enquanto casado, tinha parado de ler há uns quinze anos, por cansaço.»
Aos poucos, conheceu os colegas de clube. Uma médica aposentada, muito culta. Um professor da secundária, ainda ativo. Uma senhora chamada Cristina, farmacêutica aposentada de 58 anos, separada há muitos anos, muito discreta, que se sentava sempre ao lado do candeeiro perto da janela.
«A Cristina não falava muito», lembrou-se Carlos. «Mas, quando falava, tinha uma coisa — uma precisão. Dizia pouco, mas o pouco fazia mexer a sala. Comecei a esperar que ela falasse.»
O café depois do clube
Um grupo de cinco ou seis pessoas começou a sair para tomar café depois das sessões, num pequeno estabelecimento da Rua da Sofia. «Era informal. Dois sábados numa semana, zero na seguinte. Quem podia aparecia. Durou meses assim.»
A Cristina aparecia de vez em quando. Carlos começou, sem planear, a ir sempre. Conversavam de autores, da atualidade, dos filhos (ela tinha uma filha adulta em Lisboa), do envelhecimento dos pais.
«Um sábado, em março, a Cristina teve de sair mais cedo. Levantou-se, despediu-se, e à porta, ao passar por mim, perguntou: ‘Lê Sophia de Mello Breyner?' Eu disse que sim, mas que há muitos anos. Ela disse: ‘Vou devolver um livro dela no próximo sábado. Se chegar às 15h40, posso emprestar-lho antes.' E saiu.»
Carlos riu-se quando me contou. «Eu tenho 63 anos, e nessa semana contei os dias. Como um estudante do décimo segundo. Cheguei às 15h30. Ela chegou às 15h42. Trazia o livro, uma edição antiga da ‘Livro sexto'.»
Dezassete meses
Entre a primeira troca de livro, em março, e o jantar em que decidiram ter uma relação formal, passaram dezassete meses. Dezassete. «Sem pressa nenhuma. Ela tinha dois casamentos falhados e uma separação que lhe custara muito. Eu tinha 34 anos de vida ao lado da Manuela, e uma sensação estranha de que não me podia dar o direito a recomeçar.»
Encontravam-se, fora do clube, para caminhadas no Choupal, para cafés na Baixa, para concertos de música erudita no Convento São Francisco. Nenhum deles disse, durante meses, «nós estamos a namorar». Eram «amigos de biblioteca» que, pouco a pouco, deixaram de ser só isso.
«Um dia, na Páscoa de 2024, eu convidei-a para jantar em minha casa. Fiz bacalhau à Brás. Ela chegou com um bolo. Ao fim do jantar, eu disse, com medo: ‘Cristina, eu não sei como é que isto se chama, mas não quero que tu saias daqui esta noite como se fosses uma amiga.' Ela riu-se e disse: ‘Eu também não.' Foi tudo.»
Hoje
Hoje, dezoito meses depois desse jantar, Carlos e Cristina vivem em casas separadas — a menos de um quilómetro uma da outra, na Alta de Coimbra. Continuam a ir ao clube de leitura, a pares, aos sábados. Os filhos dela conhecem-no. Os filhos dele, ainda com alguma cautela, também.
Passam os verões em Figueira da Foz, numa casa alugada. Vão de comboio a Lisboa ver exposições. Ele diz, sem envergonhar-se, que é mais feliz do que foi nos últimos dez anos do primeiro casamento.
O que Carlos me disse que eu queria partilhar
«Diz aos teus leitores que não se inscrevam num site quando ainda se sentem sozinhos. Primeiro, inscrevam-se na própria vida. Um clube de leitura, um grupo de caminhadas, um curso da universidade sénior. As pessoas certas vão aparecer lá, naturalmente, não através de algoritmo.»
«Segunda coisa: não tenham medo da lentidão. Dezassete meses parece uma eternidade a quem está de fora. Para nós, foi o que precisámos.»
«Terceira coisa: um livro partilhado é uma forma de conversa mais funda do que muitas coisas inventadas. Se encontrarem alguém que lê, e com quem possam trocar impressões, já têm meia relação feita.»
Se quiser fazer como o Carlos
Três pistas concretas, para Portugal:
- A maioria das bibliotecas municipais tem clubes de leitura. São gratuitos. Entra-se mostrando apenas disponibilidade para ler.
- A Fundação Calouste Gulbenkian em Lisboa, o Centro Cultural de Belém, a Casa da Música no Porto, têm também pequenos círculos literários.
- As universidades seniores (há uma em quase todas as cidades) oferecem ateliers de escrita e leitura, com público entre os 50 e os 80 anos.
Este sábado, se estiver livre, consulte o site da biblioteca municipal da sua cidade. Procure «clube de leitura». Vá, mesmo que apenas para devolver um livro.