A Inês tem 23 anos, faz mestrado em psicologia, cresceu em Évora e mudou-se para Lisboa aos 19 para a faculdade. Esta é a versão dela, contada numa tarde de março com café a meio a ficar frio.
O match que não era suposto ser nada
"Estava numa fase de zero romance. Tinha saído de uma coisa de ano e meio em setembro e jurei a mim mesma que 2026 era para mim. Abri a app por aborrecimento, num domingo, tipo das 11 da noite."
Deu swipe no Tomás porque ele tinha uma foto a tocar bateria num bar pequeno do Bairro Alto, e ela reconheceu o sítio. Mensagem dele, dois dias depois: "foste tu que estavas na mesa ao pé do palco?" Não era ela, mas respondeu que sim, para ver onde ia dar.
O primeiro encontro no Pensão Amor
Sábado à noite. Ela chegou cedo, pediu um gin tónico, fingiu não estar nervosa. Ele apareceu com camisa enrugada e pediu desculpa por isso nos primeiros dez segundos.
"Essa coisa de pedir desculpa logo ganhou-me. Não era inseguro, era só humano. Parámos de fazer teatro muito rápido."
Ficaram no Pensão Amor até às duas da manhã, mudaram para o Sol e Pesca, e acabaram a andar descalços pelo Cais do Sodré porque a ela doíam os pés dos ténis novos.
O segundo encontro foi o teste real
"Marcámos para brunch no sábado seguinte. Ele chegou dez minutos atrasado e eu já estava a pensar em sair. Depois percebi que ele tinha esperado à porta errada do café que eu tinha escolhido."
Esse foi o momento em que ela percebeu que o timing deles ia ser assim: sempre a bater um com o outro, sempre com um pequeno atraso, mas sempre a chegar lá.
Os três meses iniciais (os bonitos e os estranhos)
Primeiros dois meses foram fáceis. Saíam muito, ela apresentou-o às amigas de psicologia, ele apresentou-a à banda. Ambos moravam em apartamentos partilhados com três colegas de casa cada.
"No terceiro mês começou a ficar desconfortável. Nunca tínhamos um sítio nosso. Eu dormia em casa dele duas vezes por semana e ficava com saco de viagem sempre preparado. Era cansativo."
A conversa sobre ir morar juntos
Aconteceu num domingo de manhã, no Jardim da Estrela, com croissants comprados a meio caminho. Ela puxou o tema de lado.
"Eu disse: não estou a propor casamento, estou a propor um T1 em Arroios com uma varanda. Se for cedo demais, dizes."
Ele riu, pensou dois dias e disse que sim. Mas com condições: dividir conta do supermercado ao cêntimo, cada um com um dia da semana para estar sozinho em casa, e um fim do contrato para renegociar em seis meses.
A mudança real (e o que ela quase estragou)
Encontraram o apartamento em abril, assinaram em maio, mudaram em junho. 820 euros por mês, com o cheiro do restaurante do rés-do-chão a subir até à cozinha.
"Nas primeiras três semanas discutimos todos os dias. Loucura. Eu lavava a loiça à minha maneira, ele à dele. Eu queria ir para a cama às 11, ele ficava acordado até às 2 a ver séries. Nunca tínhamos tido de negociar isto antes."
Salvou-os um hábito: jantar de domingo à noite, sem telemóveis, com uma pergunta obrigatória sobre a semana. Foi a amiga psicóloga da Inês que sugeriu.
O que eles acertaram desde o início
- Contas separadas e uma conjunta só para casa. Nada de "confia em mim". Transparência total nos gastos comuns.
- Dia sozinho por semana. Cada um tinha o seu. Ela às quartas, ele aos sábados de manhã. Sagrado.
- Zero etiquetas novas nos primeiros seis meses. Não mudaram status, não fizeram hard launch, não mudaram nada na frente dos outros.
O que não correu como pensavam
"Achei que ia ser tudo cinema romântico. Não foi. Foi mais tipo dois adultos a descobrir que ser adulto é uma trapalhada. Ele viu-me chorar por coisas do trabalho. Eu vi-o irritado porque a máquina de lavar partiu."
A parte boa: essas versões menos glamorosas não estragaram a cena. Solidificaram.
Onde estão agora, catorze meses depois
Continuam em Arroios. Ela terminou o mestrado em janeiro e começou estágio num centro de apoio psicológico na Graça. Ele continua com a banda e começou a dar aulas de bateria. Partilham um gato chamado Canela.
"Não sei se casamos. Não sei se vamos ter filhos. Sei que está bom agora. E isso, depois de tanto ano a ver amigas a sofrer por homens que nem sabiam o nome da rua delas, chega-me."
A parte que ela diz que mais lhe custou
"O mais difícil não foi coabitar. Foi aceitar que ele via-me em dias maus. Tipo véspera de prova de doutoramento no dia em que eu tinha tido uma má notícia da família. Chorei no sofá, com o rímel por todo o rosto. Ele trouxe chá de tília e sentou-se ao pé de mim sem dizer nada durante 40 minutos. Eu tinha orgulho de ser 'a forte'. E ali deixei de ser, à frente dele. Isso foi mais íntimo do que qualquer cena de sexo."
Ela admite: aprender a ser vulnerável na cozinha partilhada foi a maior transformação do último ano.
O conselho dela para quem está a começar
"Não acelerem o processo para chegarem a uma etiqueta. Deixem a coisa existir sem nome o máximo de tempo possível. Quando a relação é real, não precisa de press release."