Uma amiga, 54 anos, professora em Coimbra, contou-me ao telefone: «Cheguei ao restaurante, sentei-me, olhei para o menu, e percebi que estava a pedir um copo de vinho branco como pedia aos 22. Há trinta anos que não bebo vinho branco ao jantar. Não sei porquê, naquela noite, fiz isso.»
Não era o vinho. Era ela aos 22, ou uma versão dela, a voltar à mesa.
O fenómeno tem um nome, embora pouco usado
Psicólogos especialistas em transições na segunda metade da vida falam num «eu anterior ao casamento» que regressa quando voltamos a namorar. Durante décadas, vivemos uma identidade de cônjuge, de mãe ou pai, de chefe de família, de pessoa responsável por outras. O corpo aprendeu a andar devagar, a controlar a voz, a moderar o apetite.
Quando nos sentamos, de repente, frente a um estranho interessante, o músculo antigo acorda. O «eu» dos 25 ou 30 anos, aquele que namorava sem hipoteca, sem filhos, sem horários fixos, vem espreitar à porta.
Como se manifesta
Ouvi estas versões repetidas vezes, em pessoas diferentes, entre Lisboa, Braga, e Belo Horizonte:
- Pedir algo que não costuma pedir — o tal vinho branco, um prato picante, uma sobremesa.
- Rir mais alto do que o habitual, e não se reconhecer no riso.
- Voltar a mexer numa madeixa de cabelo, num gesto que se tinha perdido há anos.
- Dizer coisas mais ousadas do que diria aos colegas.
- Sentir um rubor nas faces que já não sentia desde a faculdade.
Nada disto é ridículo. É o corpo a lembrar-se de uma gramática antiga, e a testá-la.
Por que é bom, se for reconhecido
Quem volta a namorar depois dos 50 corre um risco: reduzir-se ao «eu maduro», cauteloso, que fala da reforma, da hipoteca, dos netos. Esse «eu» é honesto, mas não é a pessoa inteira. O «eu» jovem, que gostava de dançar, que lia poesia, que ria sem medir, também faz parte.
Deixá-lo à porta torna os encontros cinzentos. Deixá-lo tomar conta inteiramente torna os encontros inverosímeis — ninguém acredita que um homem de 58 anos seja, de repente, um rapaz de 25.
A arte está em deixá-lo sentar-se à mesa sem lhe dar o menu inteiro.
Um pequeno exercício antes do encontro
Dez minutos antes de sair de casa, pare. Respire. E pergunte-se: «Se eu tivesse 28 anos, o que é que vestiria? O que é que pediria? Que perguntas faria?» Anote mentalmente duas dessas coisas. Depois pergunte: «E se eu tivesse 65 anos, o que é que respeitaria em mim próprio hoje?» Anote outra.
Vá com as três ideias no bolso. Uma do jovem, uma da idade presente, uma do futuro. A pessoa à sua frente vai conhecer alguém inteiro, não uma caricatura.
Cuidado com a regressão total
Há uma armadilha conhecida: abandonar o «eu maduro» por completo, voltar a cometer os mesmos erros que cometia aos 25, apaixonar-se em três encontros, perder o discernimento. A isto, os terapeutas chamam «segunda adolescência compensatória». É compreensível — depois de trinta anos de responsabilidade, um sopro de leveza é embriagador. Mas os custos desse embriagar-se, aos 50 ou 60, são maiores. Há casas, filhos, heranças, reputação no trabalho.
Deixe o jovem vir à mesa. Mas a decisão final, a de marcar o segundo encontro, a de viajar com a pessoa, a de apresentar a família, essa pertence ao adulto.
O que dizer quando o outro nota
Se o seu encontro comentar, com um sorriso, «parece mais nova do que aquilo que disse no perfil» ou «está com um brilho diferente», não desvalorize. Diga a verdade, suavemente: «Há muito tempo que não saía assim. Estou a redescobrir uma parte de mim.» A outra pessoa percebe que é humano, e provavelmente também está a viver o mesmo.
Um sinal de que está a correr bem
Quando, ao voltar a casa, se sentir simultaneamente cansada e acordada, é bom sinal. Significa que o «eu» inteiro esteve ali — o jovem, o adulto, o que pensa no amanhã. Os encontros em que só vai uma dessas versões costumam deixar uma sensação vazia, mesmo quando correm «bem».
Na próxima vez, antes de sair, olhe-se ao espelho e cumprimente discretamente a pessoa de 25 anos que ainda vive algures em si. Depois feche a porta e leve-a consigo, mas não a solte à mesa toda de uma vez. Ela merece ser visitada, não libertada sem correia.