Um leitor do Porto, 56 anos, engenheiro civil, divorciado há três, enviou-me o perfil dele para eu ler. Tinha 840 palavras. Começava com a data de nascimento, terminava com o nome do cão. Respondi-lhe uma frase: «Isto não é um perfil, é uma autobiografia não autorizada de si próprio.»
Ele riu. Depois reescreveu. E, quinze dias depois, teve o primeiro café em três anos.
O problema dos perfis demasiado longos
Aos 55, a tentação é explicar tudo. Explicar que se é divorciado mas sem mágoa, que os filhos são quase adultos, que a hipoteca está quase paga, que há um cão, que se gosta de caminhar mas não de correr, que não se bebe mas aceita que os outros bebam.
É compreensível. Ao longo da vida, aprendemos a antecipar perguntas. Mas, num perfil, antecipar todas as perguntas fecha a porta antes de ela se abrir. A outra pessoa deixa de ter curiosidade. Já sabe tudo.
Três parágrafos, não mais
O perfil que costuma funcionar aos 55 tem três parágrafos curtos. Pense neles como três janelas pequenas.
Primeiro parágrafo: quem você é, em pouca tinta
Duas ou três linhas. Profissão, cidade, o estado civil atual sem drama. Exemplo:
«Advogada em Lisboa, 55 anos, divorciada há quatro. Vivo na Estrela com um gato que me tolera. Trabalho até tarde, mas guardo os sábados para mim.»
Note o que falta: porque se divorciou, o que sentiu, se está pronta ou não. Isso é para outra altura.
Segundo parágrafo: o que alimenta os seus dias
Não «gosto de viajar». Toda a gente gosta de viajar. Diga coisas que não couberam no bilhete de identidade. Exemplo:
«Faço pão aos domingos desde a pandemia. Leio um autor russo de cada vez, este ano é o Grossman. Ando a aprender a pintar aguarelas com uma paciência que não me conhecia.»
Três detalhes concretos são mais reveladores do que dez adjetivos.
Terceiro parágrafo: o que procura, sem fazer um anúncio
Aqui está o passo difícil. A maioria dos perfis escreve «procuro uma relação séria, sem jogos, que me respeite». Isto é genérico. Seja mais concreto e mais humano:
«Gostaria de conhecer alguém com quem o silêncio também seja possível. Sem pressa, sem lista de requisitos. Vamos ver.»
A palavra «vamos ver» é importante. Demonstra calma, não desespero.
O que é melhor omitir, pelo menos no primeiro momento
Aos 55, há assuntos importantes que devem ficar para a conversa presencial. Não por desonestidade — pelo contrário, por respeito à complexidade do tema.
- A doença crónica grave em tratamento ativo. Não é segredo para sempre, mas o perfil não é o sítio para a revelação.
- A situação financeira detalhada. Dizer «confortável», sim. Pôr o salário e o nome do banco, não.
- Os motivos do divórcio em parágrafos. «Divorciada» chega. A história completa não cabe num perfil, e não deve caber.
- Os filhos em detalhe. Dizer que tem filhos, sim. Pôr o nome deles e o sofrimento adolescente, não.
- Trauma em registo narrativo. Ninguém merece conhecer a sua dor mais funda por escrito antes de conhecer o seu rosto.
A fotografia, sem ficção
Três fotografias chegam. Uma de rosto, a sorrir, olhando para a câmara. Uma de corpo inteiro, a fazer algo normal — numa caminhada, num jardim, num café. Uma num contexto que revele algo seu — a cozinhar, ao lado de um livro, numa viagem recente.
Nenhuma fotografia deve ter mais de três anos. Aos 55, o rosto muda rapidamente. Uma foto de 2019 sentida como «a minha melhor» é, em 2026, uma pequena desonestidade que se descobre ao primeiro café.
O erro do perfil «anti-perfil»
Há também quem escreva: «Odeio estas plataformas. Estou aqui porque uma amiga insistiu. Não sou de conversa online.» É compreensível, mas comunica algo pouco atrativo — um ressentimento à entrada. Se está cético, dizer com leveza, não com azedume:
«Sou novato nisto. Prefiro um café a trinta mensagens. Peço paciência.»
A pergunta silenciosa sobre a idade
Há a tentação de subtrair anos. Um ou dois, por insegurança. Não o faça. Aos 55, ser apanhado num «59 que afinal são 61» no primeiro encontro queima a relação antes de começar. Escrever a idade correta, até, é uma forma de simpatia pela pessoa do outro lado do ecrã.
Um sinal de que o perfil está bem
Depois de escrever, feche o computador. No dia seguinte, leia como se fosse um estranho. Pergunte-se: «Eu convidava esta pessoa para um café?» Se a resposta é sim, está bom. Se a resposta é «sei demais sobre ela», encurte. Se a resposta é «não percebi quem é», acrescente um detalhe concreto.
Um perfil honesto aos 55 anos não é uma performance. É uma porta meio aberta. O suficiente para alguém bater; não tanto que já esteja tudo dito antes de entrar.